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Será tudo onda?
De tempos em tempos surge alguma voz que alerta para os problemas causados pela radiação dos celulares à saúde
Adilza Condessa: “As pessoas precisam mudar seus hábitos” / Pedro Vilela


mreSão 191,4 milhões de linhas de telefones celulares no Brasil. O aparelho não é considerado mais um acessório, mas, sim, item de necessidade básica. É quase como uma extensão do corpo e vive colado ao dono quase 24 horas por dia. É incomum encontrar alguém entre os 192 milhões de habitantes do país que não tenha sucumbido às benesses do celular. A única dúvida, que teima em aparecer de quando em quando, é se a quantidade de radiação eletromagnética, liberada pelo aparelho e antenas, pode fazer mal ao usuário. A Viver Brasil ouviu especialistas para saber o que é mito, realidade, o que pode causar preocupações ou se o usuário de celular pode dormir tranquilo.
Pouca gente sabe, mas todo aparelho celular fabricado no Brasil – e em países como Estados Unidos, Canadá, Europa – segue os padrões adotados pela Comissão Internacional de Proteção Contra Radiações Não Ionizantes (Icnirp). As radiações não ionizantes são consideradas de baixa energia e estão presentes não só em celulares, mas também nas TVs, ondas de rádio e no forno micro-ondas. A Icnirp definiu, por meio de consenso científico, qual o nível de exposição que um ser humano pode ser submetido. A partir de então, alguns países vêm adotando essas normas como padrão.

Adilza Condessa: “As pessoas precisam mudar seus hábitos” / Pedro Vilela

O engenheiro do Centro de Desenvolvimento e Pesquisas em Telecomunicações (CPqD) Antônio Marini de Almeida integrou uma equipe que estudou durante seis anos os níveis de radiação no Brasil. “Quando fizemos os estudos, células humanas vivas foram expostas a vários níveis de radiação não ionizantes. Até o limite permitido pela Icnirp, não houve problema ou qualquer alteração cromossômica”, afirma Almeida.
Ele reconhece que o assunto é polêmico e que há posições contrárias, como é o caso da professora Adilza Condessa Dode, que defendeu neste ano dissertação de mestrado em que realizou um estudo epidemiológico em Belo horizonte para pesquisar se havia alguma correlação entre os casos de mortes por câncer e a localização de antenas de telefonia celular. Os estudos de Adilza, que é engenheira e trabalha com medição de radiação eletromagnética, não trazem boas notícias para os usuários. “Os telefones celulares não são seguros”, afirma.
A pesquisadora constatou que regiões que possuem maior concentração de antenas de telefonia celular, caso da Centro-Sul, são onde incidem a maior contaminação eletromagnética. O efeito é que dentro de até 400 metros das antenas, a pesquisadora encontrou uma taxa de mortalidade por câncer maior, de 35,80 para 10 mil habitantes. “Quando nos distanciávamos das antenas, havia uma declinação dessas taxas”, observa.

fabiano
Fabiano Carreira e Sheila Almeida (abaixo): não conseguem viver sem celular / Emmanoel Pinheiro

Adilza reconhece que sua pesquisa teve limitações, já que a análise foi realizada considerando a distância das residências das pessoas que morrem por neoplasias e as localizações das antenas de telefonia celular. Alguns dados individuais como fatores ambientais, genéticos e hábitos de vida não foram avaliados. Ela não avaliou os doentes e, sim, o banco de óbitos. Mesmo assim, a pesquisadora, amparada por cerca de uma década de estudos, afirma que os aparelhos celulares emitem radiação voltada para dentro do cérebro de quem fala ao celular. “Existem pesquisas que mostram que a radiação emitida pelo aparelho lesa a saúde. O risco de câncer é bastante real e as pessoas precisam mudar seus hábitos, pois só tomamos atitudes depois de provas incontestáveis de que danificam a saúde.”
Alguns pesquisadores de neoplasias discordam dessa possibilidade de adquirir um câncer falando ao celular. O oncologista André Murad afirma que não existe qualquer relação entre a
exposição à radiação não ionizante e a doença. Ele recorre ao estudo Interphone, publicado neste ano pela revista International Journal of Epidemiology, que reuniu 13 países e 13 mil pessoas que tinham algum tipo de tumor no cérebro. O resultado é que não há comprovação do aumento do risco de tumores cerebrais em usuários de telefones móveis. “Uma série de estudos foi realizada na última década para atestar se os aparelhos representavam um mal à saúde. Já temos bastante segurança para afirmar que essa hipótese não é viável”, afirma Murad.
Alguns usuários, como o caso de Sheila Cristina Ale Almeida sofrem só de pensar na possibilidade de ficar sem o aparelho. Bancária, ela já teve quatro celulares ao mesmo tempo até trocá-los por um único, potente o suficiente para aguentar o ritmo de ligações que começa na hora que Sheila acorda e adentra no horário que vai dormir. “Lógico que se for comprovado alguma coisa, talvez mude. Mas é algo que nem penso”, diz.

Victor Schwaner

O Mobile Manufacturers Fórum MMF), associação internacional de fabricantes de equipamentos de telecomunicações, tem apoiado, nos últimos anos, diversas pesquisas sobre a radiação não ionizante. O diretor da entidade no Brasil, Aderbal Bonturi Pereira, afirma que não há qualquer risco de o usuário sofrer com a liberação dessa radiação pelo celular, já que a indústria, nos últimos anos, tem respeitado rigorosamente as regras da Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Existem, atualmente, uma quantidade grande de publicações e todas atestam que o celular não causa qualquer dano ao usuário. A indústria de telecomunicações, seja no que diz respeito aos celulares ou às antenas, se sente muito segura porque respeita as normas da OMS e está amparada por estudos científico sérios ”, diz Pereira.
O empresário Fabiano Carreira carrega sempre dois celulares e afirma que o corre-corre diário é facilitado pelo uso dos aparelhos. “Sem o celular, não conseguiria resolver minha rotina.” Para Carreira, se qualquer estudo vier a modificar a realidade e o celular for considerado, no futuro, perigoso, a indústria precisa apostar em outras tecnologias. “Mesmo que isso viesse a ocorrer, não consigo me ver sem um celular. Confesso que lutaria contra essa notícia até que se comprovasse sua veracidade.”

 

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